Sentir saudade x Sentir falta

Muitos me perguntam se eu sinto saudade.

Eu sinto falta. Dos amigos, me acostumei com as risadas, com a compania no cinema, na night. No japa com saquê numa sexta-feira qualquer, com o telefonema no meio da madrugada. Aquela que você dá quando bebeu demais e aí liga para o amigo para não ligar para quem não deve. Falta da música alta nas idas e vindas de carro, das conversas mudas que se dão com olhares e risadas. Das compras no  mercado pro churrasco que eu nem curtia, do coquinho pra micareta que eu sei que só gostava porque quando chegava lá o coquinho já estava vazio. Da “Mariuwar” do “marás” e tudo mais que vinha depois deles, dos cd’s gravados e nomeados como”ultimate best ever super dupa…” que faziam a trilha sonora no tunel rebouças e na parada certeira as 4 da manhã num “podrão” qualquer. Sinto falta das amigas do trabalho, das viagens, dos shows em que a gente mal se dava conta que era trabalho. Da feijoada com cerveja no meio do expediente de sexta onde a gente brigava pela melhor das piores mesas junto com um monte de universitário bicho grilo.

Principalmente sinto falta de dizer sinceramente que eles sabem como me achar. Sinto falta de poder deixar claro para os meus amigos que estou ao alcance, que eles podem contar comigo. Agora, eles não podem mais. Não fisicamente.

Sinto falta de tantas coisas que nem dá pra enumerar. Dos almoços de família na casa dos meus avós paternos, onde a cama que abrigava seis netos para o cochilo pós orgia gastronômica lusitana passou com os anos a abrigar 11 pessoas… em breve 12, já que Giulia tem 14 anos e já já vai agregar mais alguém. Do sorriso de satisfação plena e genuína da minha vó cada vez que via mais alguém chegar e de ver meu avô engasgar pra não chorar de emoção quando a gente se reunia em volta da mesa e tentava levar a sério a missão da minha vó de fazer a gente rezar antes do almoço (quem consegue rezar com aquele cheiro divino vindo do forno?) Eu sinto falta do meu pai e de admirar como ele escolheu pra ele o papel de “pau pra toda obra” – isso é lindo nele – e sinto falta da minha mãe querendo companhia pra ir ali na esquina e da sua facilidade pra amar tudo e todo mundo.. e MUITO (deve ser uma coisa que só mãe sabe fazer, sei lá). Dos meus tios (todos), do meu irmão e da minha cunhada que mais parece uma boneca saída daquelas histórias de final feliz… Da conexão bizarra com a minha prima que nos coloca em situações parecidas em momentos nada adequados e que nos faz rir demais. Sinto falta de um namorado na cama insistindo com a luz ligada mesmo sabendo que pra dormir, gosto (e preciso de breu). Sinto falta de imaginar que embora nunca visse minha madrinha, bastava agendar qualquer dia, qualquer hora que em 30 minutos estaríamos colocando uma vida de fofocas em dias. Sinto faltar o ar de tanta saudade quando penso nos meus avós maternos… dos jogos do Flamengo com meu avô, a cerveja gelada e o queijo em cubinhos, das madrugadas vendo Formula 1, olimpiadas, copa do mundo e qualquer coisa onde tem 1º, 2º e 3º lugares e das discussões que me transformaram nesse ser psicótico que tem ojeriza de louça que fica por lavar na pia.

Sinto falta de como eu e minha vó sempre orbitamos uma em volta da outra… natural, fácil… almas gêmeas. Abraçar minha vó sempre foi dar um abraço em mim. Todas as vezes que fui doce e carinhosa com ela, fez mais bem pra mim do que pra ela. Certeza.

Sinto falta de ter não só uma casa. De ter várias. De me sentir em casa em tantos lugares que mal dá pra acreditar que alguém tenha essa sorte na vida. De chegar no número 18 da Visconde de Itamaraty durante tantos anos e ter minha cama, meu travesseiro, minha coberta, minhas roupas… uma mãe que sempre chamei de “tia” pra também adotar como minha. Sinto falta de qualquer dia, seja por qualquer motivo (ou sem nenhum) tocar o interfone e dizer “sou eu” e ouvir a porta abrir. Normal… eu estava chegando na casa da minha irmã.

E só por esse motivo eu sei a diferença de sentir falta e sentir saudade.

Saudade pra mim é quando não tem solução para o que você sente. Vai além de 18 horas num avião. É quando estar longe não é simplesmente uma opção. Essa semana eu senti saudade. Daquelas de não ter o que fazer além de chorar e re-catalogar tudo que se viveu. Tentar simular conversas, tentar imaginar conselhos e broncas (sei que estaria ganhando muitas ultimamente). Eu vim pra Nova Zelândia pra viver uma experiência que eu sempre quis ter e que se eu não fizesse agora, talvez não fizesse mais. Queria fazer um relacionamento dar certo e minha ansiedade fez tudo dar errado. Com isso, descubro diariamente mais sobre mim (coisas que nem sei se gostaria de descobrir). Mas com certeza também vim porque precisava ver como era habitar um mundo que nunca abrigou a Gabi. E digo: não faz diferença nenhuma. A boa notícia é que o “catálogo” veio comigo e não pesou em nada na minha bagagem. Dá pra folhear de vem em quando e rir sozinha (mais que chorar).

Eu sinto falta de tudo a todo momento. Mas não dói. Saudade, eu só sinto da Gabi.

 

“I’ll never understand why she had to die and we all got to live. There’s no reason for it. I guess. Death’s just death nobody understands it.

Once upon a time I thought I was put on Earth to save my sister. In the end, I couldn’t do it.

I realize now that wasn’t the point. The point was, I had a sister. She was fantastic.

One day, I’m sure I’ll see her again. But until then our relationship continues…”

From the Movie ” My Sister’s Keeper”

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6 comentários sobre “Sentir saudade x Sentir falta

  1. Mais uma vez teu post me fez refletir bastante (tenho certeza q nao sou a unica)! Acredito que nao seja a tua intencao, mas acabar sendo uma consequencia pra mim..
    🙂
    beijos

  2. Afilhadinha do coração. Até longe vc faz eu me derreter. Por isso demorei para escrever. Pois tentava, tentava e choravaaaaaaaa. Aí não dava né?
    Realmente mesmo não vendo sua dinda, vc sabe que conta com ela para o q der e vier.
    Sua avó me disse isso cara: Voces duas são tenis e cadaço, alma gemea, sei lá……voce faz muita falta p ela e tenho certeza que por voce ela estaria aí , certo?MAs estamos tds juntos, com o mesmo pensamento,o mesmo desejo : que vc seja muiiiito feliz. Só para isso serve essa distancia, essa saudades, essa falta…..
    T AMO CADA DIA +

  3. Sua mãe é uma manteiga derretida, como você bem sabe…Mas o mais incrível é descobrir a cada dia com nossa breve separação, que eu te conheço bem mais do que eu gostaria, e digo isso, porque mesmo antes de você imaginar ou planejar algo, eu já sei os motivos que possam ter te levado a tomar certas atitudes diante da vida, e isso pode me trazer vários sentimentos diante do seu sucesso ou decepções…Mas sendo saudade ou falta, sei que tudo nessa vida material passa, ficando apenas os momentos bons que tivemos enquanto estivemos juntos. Se o amor existe, o reencontro em algum lugar desse Universo Infinito de Deus será inevitável!
    Te amo!

  4. Porra, aí acabou comigo!
    Fui lendo o post, já sabendo aonde ele ia chegar e quando chegou, o nó na garganta, também já esperado, veio com força.
    De olho aberto, penso e sinto saudade da Gabi, aí fecho os olhos e escuto a gargalhada dela. Engraçado como eu faço isso TODAS AS VEZES em que ela me vem à cabeça. É quase que uma obrigação… Pensar na Gabi me leva a querer lembrar daquela gargalhada, talvez seja uma forma manter o sorriso no rosto, ao me dar conta de que ela não tá mais aqui.
    Detesto sentir saudade, também detesto sentir falta. E sinto MUITO a sua! Dela também. =/

    Te amo!

    Beijos

  5. Lembra que sentir saudade é igual a emitir bolhas flutuantes de amor. Sabe os desenhos animados em que uma bolha de corações sai voando e quando chega perto do destinatário ela estoura e espelha os corações pra pessoa? Saudade é isso. Bolhas de bons sentimentos voando à procura do destinatário.

    beijos (com bolhas)!

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