Quase 90% das vezes em que comentei com alguém que estou indo morar na Nova Zelândia a afirmativa vem seguida de um “Por quê?”. Na verdade, depois de tanto refletir sobre os meus motivos, muitas vezes respondi quase que de imediato: “Por quê não?”. Mas a conta não “fecha” simples assim. Milhares de variáveis precisam ser avaliadas quase que diariamente durante um período significativo se você quer morar muito longe de onde seus pés já começaram a criar raízes.
Todo dia quando vejo as notícias do dia, mais uma moedinha cai do lado da balança que mostra que está na hora de fazer as malas! Sim, sei que violência tem no mundo todo, que “Deus é que sabe”, sei principalmente que algumas coisas acontecem quando e onde você menos espera. Mas não dá pra negar que apesar de todas as belezas naturais, o Rio de Janeiro está longe de ser aquele lugar perfeito pra gravar um comercial de margarina. E eu quero sim uma vida perfeita (tentar pelo menos). Queria acordar de manhã, colocar a mesa do café, preparar os filhotes pra escola, dar um beijo neles e no maridão enquanto ele prende o cinto das crianças no banco de trás. E dar tchau. E enquanto me preparo para o meu dia de trabalho, ter a tranquilidade de saber que no final do dia, jantaremos todos juntos, na hora combinada. Na prática dificilmente será assim, nem na Nova Zelândia, nem aqui. A vida “engole” a gente. Mas quero tentar, posso e vou me dar esse direito. Então quero tentar do melhor jeito que eu puder.
Quero me dar a chance de ir pra um lugar onde as pessoas selecionam o lixo, onde os policiais não trabalham armados, onde as páginas policiais do jornal falam de gatos que subiram na árvore e de vizinho que estão incomodados com a sombra da árvore do outro em seu quintal. Quero dormir de porta aberta, confiar nos políticos que cuidam de onde eu moro. Quero pagar imposto e saber pra onde vai esse dinheiro. Quero ter certeza que as escolas públicas só vão aprovar meu filho se ele realmente merecer. Quero dar bom dia, boa tarde e boa noite, ouvir mais expressões como “com licença, por favor e obrigado.” Quero voltar a ficar indignada quando ouvir falar de assaltos, estupros, tiros e sequestros (qual foi a última vez que você se indignou de verdade com um assassinato?).
“For everything you have missed, you have gained something else, and for everything you gain, you lose something else.”
Queria também não sentir tanta saudade como sei que vou. Da minha família, dos meus amigos, do meu trabalho. Não vai ser fácil, assim como nenhuma grande escolha é. Nessa história também vou me permitir voltar atrás se achar que devo, embora ache isso muito, mas muito pouco provável mesmo. Tenho o privilégio de ter um amor, e esse amor, hoje, além da super prioridade que é pra ele estudar, pensa como eu.
Eu não sei vocês, mas começo a achar inadimissível um monte de coisas: 1h30 pra chegar no trabalho em um bairro vizinho ao meu, a banalização da violência (onde um Nardoni e uma Von Richtoffen, parecem ser os únicos casos absurdos porque representam a minoria – quantos pais idosos por aí sofrem com a violência dos próprios filhos e vice-versa?), a hipocrisia dos políticos populistas que colaboram com o crescimento desnorteado da população com a criação e o incentivo a todas as “bolsas” disponíveis (é bolsa-escola, é bolsa-família…), as enchentes (resultado da soma do descaso das autoridades e da irresponsabilidade da população que emporcalha toda cidade). A garantia de 4 bilhões investidos numa Olimpíada através de um petróleo que vai custar muito mais pra ser encontrado e extraído, a maquiagem urbana e o valor indecente do desvio dessa mesma verba. Ver a própria população pichar, destruir e roubar a si, quando o mínimo de melhoria houver sido feito… Depois de terem chorado com a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo, perceber que os verdadeiros fanáticos por futebol não poderão comprar ingressos e assistirão das suas casas a competição, assim como já faziam em competições anteriores porque todos os ingressos foram parar nas mãos das agência de turismo e dos cambistas. Ufa! Cansei!
“Nobody can go back and start a new beginning, but anyone can start today and make a new ending.”
E se não der certo? Pode ser sim que nada dê certo, e que eu tenha que voltar e “entubar” tudo isso de novo na minha rotina. Mas não estou indo a passeio e quem me conhece sabe que dificilmente desisto até que consiga o que me propus a fazer. E o Rodrigo é feito desse mesmo material que eu sou feita também. O que me traz a pergunta do primeiro parágrafo: Por quê não ir?
Há quase dois anos saí de supetão do trabalho que eu mais amava e me orgulhava no mundo… e sofri viu, mas uma abelhinha sempre “zumbizava” no meu ouvido que um dia eu ia entender. Hoje eu provavelmente não estaria vivendo nada disso se ainda estivesse lá. Foi preciso que a vida me empurrasse com força pra me fazer voar. Pra eu romper os “cordões umbilicais” e as “raízes” que me prendem aqui pra finalmente tentar viver o tal comercial da margarina.
Torçam pela gente!
Brevíssima nota de rodapé: Tá bom… eu vou sentir MUITA saudade de ver o Mengão no Maraca lotado!
Mariana Melo disse,
maio 7, 2010 @ 1:23 am
Poxa vc me fez chorar..mas não se assuste! é um choro de alegria, um choro de felicidade em saber q vc tá partindo atrás dos seus sonhos; e o mais gostoso disso tudo, é q está indo com alguém q faz parte desses sonhos…alguém q sempre estará ao seu lado qdo vc precisar…Seja mto mto mto + mto feliz!!! Não se esqueça de nos manter informados dos progressos q certamente vcs terão! Bjs
P.S.: Giulia disse q vc a convidou para passar 1 ano com vcs…é sério?
Prometo q deixo, agora depende do seu pai, rss
Analu disse,
abril 24, 2010 @ 1:32 pm
Mais um texto MARAVILHOSO !
Não acredito que alguém ainda questione a sua decisão… Vai ser feliz ! Em qualquer lugar… experimente, tente, viva !!!
Estou aqui na torcida !
Beijos..
Formiga disse,
abril 23, 2010 @ 12:33 am
Me deu um puta nó na garganta ler estes três últimos posts. Estou com os olhos cheios de lágrimas imaginando a dificuldade de largar cada foto, lápis, amigo e paisagem pra trás. Me dá uma enorme saudade por antecedência.
Mas não tenho nenhuma dúvida que você deve ir também, Mônica. Vai fundo. Escreve essa história. Percorre esse caminho.
Eu estou torcendo.
Christina disse,
abril 21, 2010 @ 8:52 pm
Oi fofolete,
Acho que o mundo eh grande demais pra gente ter que passar a vida inteira num lugar soh. Viajar eh preciso! E sair do Brasil me fez sentir TANTAS saudades dele que jamais pensei que gostasse tanto dele. Mas tambem me fez sentir cidada do mundo. Tanta coisa pra ver, fazer, sentir, experimentar… a gente precisa de varias vidas e muitas viagens pra ver um pouco do que o mundo tem a oferecer.
Jah disseram aih, nao existe lugar perfeito. Alias, nada eh perfeito, ninguem eh perfeito, mas quer saber? Moh sensacao gostosa de estar no exterior e poder dizer “putz, isso funciona tao melhor no Brasil” ou “que saudade de um feijaozinho decente”.
Tenho certeza de que voce vai ser muito feliz com a sua escolha e vai ser uma experiencia pra vida toda. E vicia, viu? Se nao for a Nova Zelandia, vai ser Europa, EUA, whatever. O mundo eh seu quintal!
Beijinhos,
Chris
Ique Rebelo disse,
abril 20, 2010 @ 6:48 pm
Mengao a parte,
Gostaria de desejar muita sorte para vc e pro Rodrigao e dizer que vai dar certo sim!!
E que irei sentir muita falta de ver vc aqui no trabalho !!!
um bjao para vc e pro rodrigo!
Ique
Junior disse,
abril 20, 2010 @ 1:55 pm
Irmã!!!
Assim vou acabar indo com vc, rsrsr.
Te Amo.
Dri disse,
abril 20, 2010 @ 1:34 am
Tão ruim saber q assim como eu, milhares se acostumaram a lidar com as mazelas de uma país mal administrado.
Ruim saber q achamos normal, corriqueiro, explicável e que acontece com todo o mundo.
Não acontece não e não precisava acontecer conosco.
Não julgo vc de modo algum pq querer ir viver em condições satisfatórias e reais de vida .. principalmente querendo construir família.
Lembro que qdo vc me contou q ia eu gritei um : uaaau, q maneiro! vai sim! eu não sei nada de lá mas se vc tá dizendo, eu acredito.
Vida longa, momentos inesquecíveis, sonhos reais e qualidade de vida.
É isso q eu desejo à vc e claro, ao seu lenhador.
amo vc.
Paula disse,
abril 19, 2010 @ 10:55 pm
É incrível ver como o nosso Rio(e não só o Rio) tem tido cada vez mais motivos de desgosto, de vontade de ir embora para não ter mais que aceitar e engolir as coisas que na verdade NÃO são banais e sim cotidianas hj.
é triste imaginar que para vc ter uma vida serena, calma, com justiça, com uma população educada vc tenha que ir para tão longeeee…me doe só de imaginar vc me mandando um recado no Orkut, “Ah prima estou Grávida!” e imaginar que vc vai estar tãooo longe mas não posso pensar em mim e no que eu vou sentir.
E sim que vc vai estar bem…e bem eu digo no verdadeiro sentido da palavra com qualidade de vida para vc, rodrigo e meus priminhos.
Ah saudade vai apertar mais estarei sempre na sua torcida!
Meu exemplo, meu orgulho, minha PRIMA!
Cris Campos disse,
abril 19, 2010 @ 10:25 pm
Oi Monica,
Sempre achei muito bom viver no Brasil, apesar dos pesares. Não saí daí pra escapar desses problemas, nem mesmo em busca de “uma vida melhor”.
Sim, existem todos esses problemas que você citou, mas o Brasil tem inúmeras qualidades, que dificilmente encontraremos fora daí. E essas qualidades ficam ainda mais evidentes depois de passarmos anos longe.
Os problemas ficam mais distantes, e mais absurdos sim. Mas ainda no meu ponto de vista, não pesam mais do que as qualidades.
Acho que todo mundo deveria experimentar uma experiência como essa que você está embarcando agora! Abrir os horizontes é tudo de bom!
Mas lembre-se que não existe lugar perfeito no mundo. Nem mesmo aquele do comercial de margarina.
Cada lugar tem suas vantagens e desvantagens sim, mas acho que o nosso conto de fadas está mesmo é dentro da gente.
É muito boa essa sensação de mudança né?! Esse frio na barriga diante do desconhecido, diante do “começar de novo”.
Essa por si só, já é uma ótima razão pra entrar no avião.
Ju Leite disse,
abril 19, 2010 @ 10:05 pm
Tô me sentindo a própria abelhinha zumbizando o seu ouvido “um dia vc vai entender”. A verdade amiga, é que sua vida já mostrou por a + b que sutileza não é a palavra de ordem. No seu caminho, intenso é o adjetivo. So… be sure that this trip is gonna be INTENSE!
Raoni disse,
abril 19, 2010 @ 8:10 pm
Monica!!
Só saindo do nosso lindo e querido pais que percebemos que essas coisas realmente existem…Que os lixos sao coletados corretamente,que o trem o onibus chega no horario certo,que vemos retorno do nosso $$$ pagos em impostos e milhares de coisas que nosso pais precisa melhorar!
Eu fiz a mesma escolha que vc e vou te falar sinto muita saudade de tudo e todos ontem mesmo acompanhei o Mengao pela net,foi uma porcaria de transmissao mais colocando na ponta do lapis é algo que podemos relevar…
Enfim so arriscando pra saber e saindo do nosso habitar para vermos como estamos atrasado!
LG von Deutschland.
By Raoni
Glaucia Jardim disse,
abril 19, 2010 @ 8:06 pm
Amiga, torço muito por vc. Sei o quanto essa etapa será importante na sua vida, acho que todo mundo precisa viver algo extremo assim na vida… faz parte do crescer!
Que Deus a abençoe ainda mais… E tenha certeza que mesmo que dê errado, já terá dado certo, só pela sua coragem e força!
Só espero poder te ver antes do embarque, quero que vc conheça os meus filhos. Pena tb a gente não ter se visto tanto como eu gostaria. Mas saiba que vc fez parte de uma parte muito importante da minha vida tb.
Um beijo no seu coração!
Gal.
Filipe disse,
abril 19, 2010 @ 7:40 pm
Passei o Reveillon de 2004 para 2005 na Austrália e voltei exatamente com tudo isso que vc falou na cabeça. Esse tal continente chamado Oceania tem inúmeras vantagens sobre nosso tão amado Brasil / Rio de Janeiro. Mas na época não tive a coragem de largar o que eu tinha pra começar do zero. E hoje vivo me perguntando pq não fui. Por isso, jamais se arrependa de sua saída, quando hoje vc está vivendo uma oportunidade bem mais próxima de seus sonhos. Bjs
ps.: Mengão é Mengão em qualquer lugar do mundo!
Leonardo Storch disse,
abril 19, 2010 @ 7:18 pm
O seu texto resume bem a realidade do nosso país, nos faz refletir. Fico feliz e triste ao mesmo tempo, em saber que não mais irei me esbarrar com vc pelos cantinhos do mundo do entretenimento… =/ Mas irei torcer por você! Que você seja muito feliz e consiga alcançar ao máximo a sua meta da margarina! =D
Nos mantenha antenados, virtualmente, sobre a sua jornada!
Um grande beijo de alguém q tem um extremo carinho por você!!
Leo